23 - 02

A sós

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Foto: Daniela Toviansky

Foto: Daniela Toviansky

Desde que comprei um celular, há dez anos, as esperas no ponto de ônibus, o cafezinho solitário no meio da tarde, as andanças na rua ou o contemplar de uma paisagem passaram a ser momentos menos meus. Nunca estou sozinha: a possibilidade de compartilhar o instante com quem não está ali me acompanha. Na era das comunicações instantâneas, há sempre um telefone tocando, uma mensagem chegando, uma janela piscando no computador. Nesses tempos, solidão e silêncio são quase defeitos: se não estou falando com alguém, parece que há algo errado comigo. Foi em madrugadas insones que consegui dispensar todas as companhias para me encontrar com a mais ausente: eu mesma. A sós, pude me fazer perguntas difíceis e respondê-las em voz alta. Ensaiar conversas que gostaria de ter. Ou apenas ficar quieta e à toa – sem me sentir esquisita por isso. E descobri que a solidão é o espaço mais verdadeiro e tranquilo que podemos explorar: longe dos olhos dos outros, somos quem somos, e não quem deveríamos ser. Agora, exercito a solidão diurna. Ir ao cinema sozinha, tomar um café com o celular desligado e caminhar sem companhia têm me ensinado a separar o que é estar com alguém por vontade e o que é se manter conectada por simples ansiedade. E minha companhia tem ficado cada vez melhor.

Texto de Amanda Rahra, originalmente publicado na edição #6 da Revista Sorria. Para ler mais textos inspiradores como este, assine a Sorria. :)

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