06 - 04

Tinha uma pedra

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Fotos: Rodrigo Zugaib

Fotos: Rodrigo Zugaib

Bastava colocar os pés na praia para a caça ao tesouro começar. Dispensando mapas e baús de piratas, eu e meu irmão gastávamos as férias em busca de outras joias: aquelas que, trazidas pelas ondas e encalhadas na areia, apenas aguardavam ser descobertas por quem soubesse enxergar. Eram algas, conchas, tocos de madeira, cascas de tatuí, velhas estrelas-do-mar. A mais diferente seria a mais preciosa: o esqueleto de uma folha que ficou muito tempo na água, um pedaço de coral vermelho como um morango. A coleção subia a serra com a gente e perdia-se entre os brinquedos de plástico. Reencontrar itens dela, às vezes anos depois, fazia com que eu sentisse de novo a maresia, o gelado úmido da areia entre os dedos, o cheiro de verão.

Memórias assim me ensinaram que às vezes lembranças ficam mais bem guardadas em sementes e pedras do que em diários. Por isso, já crescida na cidade, continuei a caminhar com os olhos no chão, vasculhando joias à minha espera em ruas e jardins. São pedras redondas que viram presentes, folhas de mil formas que contam as estações, florzinhas que marcam encontros, cascas de árvores caídas pelo bairro. Observo os detalhes, sinto a textura e o cheiro, conto as cores, combino os achados uns com os outros. Depois encontro esconderijos para eles, em caixinhas e páginas de livro. Afinal, não é uma coleção comum. É a minha história. É o meu tesouro.

Texto de Claudia Inoue, originalmente publicado na edição #8 da Revista Sorria. Para ler mais textos inspiradores como este, assine a Sorria. :)

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